O retorno de um clássico da música brasileira
A reedição em LP do álbum 'Herb Alpert presents Sergio Mendes & Brasil'66' marca o sexagésimo aniversário de um trabalho que transformou a carreira do pianista fluminense e consolidou a presença da bossa nova no mercado fonográfico global. Lançado originalmente em 1966 pela gravadora A&M Records, o disco apresenta um som vibrante e envolvente que conquistou audiências internacionais e solidificou a posição de Sergio Mendes como grande embaixador da música brasileira no mundo.
O reconhecimento mundial de Sergio Mendes chegou em momento estratégico da história da bossa nova. Dois anos após o sucesso de 'Garota de Ipanema', interpretada por Astrud Gilberto e lançada em 1964 no álbum do saxofonista de jazz Stan Getz em parceria com João Gilberto, o pianista carioca apresentou uma abordagem diferenciada do gênero. Enquanto 'Garota de Ipanema' conquistava as rádios com sua elegância contida, o conjunto Brasil'66 trouxe uma proposta mais expansiva e festiva da música brasileira aos ouvidos americanos.
A formação do Brasil'66 e sua sonoridade única
O Brasil'66 reuniu talentos importantes para criar uma sonoridade que transcendia fronteiras. Sergio Mendes ao piano era acompanhado pelo baterista carioca João Palma, pelo baixista norte-americano Bob Matthews e pelo percussionista José Soares. A voz da cantora americana Lani Hall completava a formação, trazendo uma dimensão vocal que reforçava o apelo internacional do projeto. Essa combinação entre músicos brasileiros e estrangeiros refletia a proposta artística do trabalho: criar uma ponte entre a autenticidade da bossa nova brasileira e os elementos do jazz latino que seduziam o público ocidental.
O diferencial do Sergio Mendes & Brasil'66 estava em como reinterpretava clássicos e novidades. O conjunto ambientava canções de diversos compositores dentro de uma atmosfera sofisticada de jazz latino, expandindo seu potencial comercial e artístico. Essa abordagem permitiu que o disco alcançasse tanto o público especializado em jazz quanto ouvintes ocasionais que buscavam músicas dançáveis e bem produzidas.
O repertório que marcou presença
A tração inicial do álbum veio de 'Mas que nada', o samba de Jorge Ben que havia apresentado o compositor ao Brasil em 1963. A faixa funcionou como porta de entrada perfeita para o resto do disco, estabelecendo o tom do trabalho. Além dessa composição emblemática, o Brasil'66 gravou releituras de compositores consagrados da bossa nova e do samba, reposicionando essas músicas em arranjos inovadores.
'O pato', composição de Jayme Silva e Neuza Teixeira de 1960, ganhou uma roupagem que mantinha sua leveza original mas a situava em um contexto internacional. 'Samba de uma nota só', criação de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes de 1959, recebeu a versão em inglês 'One note samba', estratégia que facilitava sua inserção nas rádios americanas e europeias. 'Água de beber', outro Jobim e Vinícius de 1961, também recebeu tratamento sofisticado que realçava suas qualidades melódicas.
Uma pérola importante do álbum foi 'Tim dom dom', composição de João Mello e Clodoaldo Brito, conhecido como Codó da Bahia. A música havia sido lançada originalmente em 1962 por João Donato em seu álbum 'Muito à vontade', depois reinterpretada por Jorge Ben em 1963 no disco 'Samba esquema novo'. A inclusão dessa faixa no trabalho de Sergio Mendes demonstrava sua habilidade em reconhecer e ressignificar peças importantes da música brasileira.
O impacto global e a consolidação internacional
Após seu lançamento, o álbum de Sergio Mendes transcendeu as fronteiras dos Estados Unidos. A receita do Brasil'66 conquistou Europa, Japão e outras regiões, convertendo-se em símbolo da música brasileira internacional. Diferentemente de outros artistas que mantinham abordagens mais tradicionais da bossa nova, Sergio Mendes oferecia uma versão que dialogava diretamente com as expectativas do público pop ocidental sem renegar suas raízes.
O sucesso do disco abriu portas para que o pianista continuasse sua carreira prolífica nos Estados Unidos, onde havia se estabelecido em 1964. Sua capacidade de traduzir elementos da música brasileira de forma acessível mas respeitosa consolidou seu legado como um dos maiores representantes do diálogo musical Brasil-Estados Unidos do século XX.
O retorno ao vinil e a revalorização do formato físico
A nova edição em vinil do 'Herb Alpert presents Sergio Mendes & Brasil'66' chega em momento de ressurgimento do interesse por formatos físicos. O disco foi fabricado em vinil verde, escolha que remete à identidade visual tropical da capa original e reforça a conexão do trabalho com a brasilidade. Essa reedição não representa apenas um ato nostálgico, mas uma revisitação consciente de um trabalho que permanece relevante musicalmente e historicamente significativo.
A revalorização do vinil entre colecionadores e melómanos contemporâneos demonstra que clássicos como este continuam atraindo interesse genuíno. O álbum, que aos 60 anos mantém sua capacidade de comunicar a alegria e sofisticação da música brasileira, volta ao mercado como testemunho duradouro da importância de Sergio Mendes para a história da música popular internacional e para o reconhecimento global da bossa nova como expressão artística de primeira grandeza.
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