Mobilização de empresas contra proposta de tarifa de 25% Brasil EUA
A tarifa de 25% Brasil EUA proposta pelo governo americano mobilizou dezenas de empresas do país para contestar a medida. Importadores americanos que dependem de produtos brasileiros iniciaram uma ofensiva junto ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) argumentando que a sobretaxa colocaria em risco operações inteiras e elevaria custos para consumidores americanos.
Entre as empresas que se manifestaram contra a medida está a GeoCentral, uma das maiores importadoras de pedras semipreciosas dos EUA. A companhia, sediada em Mason, Ohio, controla mais de 25% de seu portfólio através de importações brasileiras oriundas de estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Pedras naturais como ametistas, ágatas e quartzos extraídas de minas brasileiras percorrem milhares de quilômetros até chegar aos Estados Unidos, onde são transformadas em itens de decoração, presentes e lembranças vendidos por atacadistas e varejistas.
Insubstituibilidade do Brasil em qualidade e escala de produção
O argumento central apresentado pelas empresas americanas é que não existem fornecedores em outros países capazes de substituir o Brasil em termos de qualidade, escala de produção e preço. George White, CEO da CM Paula, holding que controla a GeoCentral desde 2008, afirmou que a empresa compra produtos brasileiros por necessidade, não apenas por preferência.
"Nós não compramos do Brasil simplesmente porque queremos. Compramos porque o país oferece a melhor combinação de qualidade e custo disponível no mundo," declarou White em entrevista. Segundo o executivo, o Brasil possui uma infraestrutura mineradora extraordinária, com capacidade para extrair, cortar, polir e preparar pedras para comercialização em larga escala, infraestrutura que simplesmente não existe em outros locais.
Em 2025, as exportações brasileiras da categoria de pérolas e pedras preciosas ou semipreciosas, brutas ou trabalhadas, somaram cerca de US$ 45,6 milhões para os EUA. Quando se incluem joias e outros artigos de matérias preciosas ou semipreciosas, o valor supera US$ 71,8 milhões. A CM Paula informou que aproximadamente 120 produtos comercializados pela GeoCentral seriam afetados pela tarifa e argumentou que não estão disponíveis em fontes alternativas com preços razoáveis, qualidade semelhante ou quantidade suficiente fora do Brasil.
Impacto de tarifas anteriores e recuperação de valores
A empresa já sofreu impactos relevantes com aumentos de tarifas impostas anteriormente sobre importações brasileiras. As sobretaxas obrigaram a companhia a reduzir despesas, demitir funcionários, diminuir investimentos em marketing e elevar preços praticados no atacado. No Brasil, as sobretaxas impostas pelos EUA chegaram a 50% sobre parte dos produtos exportados em 2025.
Parte desses valores começou a ser devolvida após decisões da Justiça americana que questionaram a legalidade de tarifas impostas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). Em 20 de novembro de 2025, o presidente Donald Trump assinou um decreto que retirou a tarifa adicional de 40% aplicada a dezenas de produtos agrícolas e pecuários brasileiros, antes mesmo da decisão definitiva sobre a legalidade das cobranças.
De acordo com White, a empresa já recuperou cerca de 10% dos valores devidos e espera receber o restante até o fim deste ano ou no início do próximo. Ao todo, a companhia apresentou 117 pedidos de restituição relacionados a importações provenientes do Brasil e da China.
Setores diversos se manifestam contra a medida
A GeoCentral não está sozinha. Ao menos outras 11 empresas e entidades setoriais enviaram manifestações ao USTR contestando a proposta. Destas, pelo menos nove são companhias americanas que afirmam que a medida aumentará custos, prejudicará operações e reduzirá a competitividade da indústria dos EUA.
The Fantastic Floor, empresa especializada em pisos de madeira sediada em Washington, pediu a exclusão de espécies brasileiras como jatobá e cumaru da tarifa, argumentando que essas madeiras são nativas da América do Sul e não estão disponíveis comercialmente nos EUA. Artivo Surfaces, importadora e distribuidora americana de revestimentos e pisos, afirmou que as madeiras brasileiras precisam ser processadas ainda na origem para preservar qualidade e que a sobretaxa não estimularia produção doméstica.
Strong Flooring Solutions argumentou que não existem espécies americanas capazes de reproduzir a aparência das madeiras brasileiras. Wood Timber Import destacou a importância de molduras e componentes de construção fabricados no Brasil para o mercado imobiliário americano, sustentando que a produção doméstica não consegue atender à demanda em volume e qualidade suficientes.
JKG Inc. (Jessie Kan Granite), distribuidora de placas de granito, mármore e quartzo, afirmou que os materiais brasileiros possuem características geológicas únicas e que a medida apenas encareceria obras e produtos finais. Legacy Roots Housing Initiative (LRHI), organização voltada ao desenvolvimento de moradias modulares, alertou que a tarifa criaria barreiras para pequenos incorporadores e atrasaria projetos de habitação.
Educação e inovação agrícola também atingidas
Lauria Dental Model, empresa que comercializa modelos odontológicos utilizados por universidades e cursos de formação profissional, pediu exclusão de seus produtos da medida, argumentando que são destinados exclusivamente ao ensino e que a sobretaxa apenas elevaria custos educacionais. A American Seed Trade Association (ASTA), que representa a indústria de sementes dos EUA, defendeu que sementes para plantio sejam excluídas da tarifa, sustentando que a implementação prejudicaria competitividade do setor americano e afetaria cadeias globais essenciais para inovação agrícola.
Cronograma e expectativas de negociação
O prazo para envio de manifestações por escrito encerra em 1º de julho, com audiência pública marcada para 6 de julho. O governo dos EUA deverá analisar as contribuições recebidas antes de tomar decisão final, com expectativa de conclusão do processo até 15 de julho, data prevista para eventual implementação das novas tarifas.
Segundo o Itamaraty, o Brasil atua em duas frentes para tentar reverter a proposta: a contestação técnica da investigação conduzida pelo USTR e a negociação diplomática com Washington. O governo brasileiro já enviou manifestações formais e estuda apresentar nova contribuição durante período de consultas. Nos bastidores, a avaliação é que a proposta ainda pode ser negociada antes da conclusão do processo.
Articulação da Câmara Americana de Comércio
A Amcham Brasil, entidade que representa empresas e relações comerciais entre Brasil e EUA, acompanha investigação e defende saída negociada para o impasse. A entidade mantém conversas com autoridades brasileiras e americanas sobre o tema, com reunião realizada em 15 de junho em São Paulo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e cerca de 15 empresas.
A Amcham participou da consulta pública e audiência promovidas pelo governo americano e prepara nova manifestação à USTR. O documento deve destacar efeitos das sobretaxas sobre cadeias de suprimentos, produção e consumo no mercado americano, além do papel do Brasil como fornecedor estratégico e risco de substituição por concorrentes de outras regiões, especialmente da Ásia. "Brasil e Estados Unidos possuem relação econômica altamente complementar e estratégica," afirmou a entidade em nota, reafirmando seu compromisso de trabalhar para que divergências sejam tratadas através do diálogo e cooperação.
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