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Escafandristas relança Buarque com sofisticação aos 82 anos

Escafandristas relança Buarque com sofisticação aos 82 anos
Fonte: g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/06/19/aos-82-anos-chico-buarque-tem-obra-remodelada-ao-feitio-sofisticado-dos-escafandristas-no-album-do-quarteto.ghtml

Quarteto Escafandristas reimagina legado de Chico Buarque

O grupo carioca Escafandristas apresenta ao público sua estreia discográfica intitulada "Escafandristas cantam Buarque", lançado no mês de junho, poucos dias antes do 82º aniversário do compositor. Com direção musical de Thiago Amud, a proposta do quarteto Escafandristas transcende o simples exercício de regravação ao oferecer uma releitura sofisticada do repertório de Chico Buarque através de arranjos inovadores e harmonizações refinadas.

Formado há dois anos com o propósito específico de explorar diferentes perspectivas sobre o cancioneiro buarquiano, o Escafandristas é composto por Thiago Amud na voz e violão, Alice Passos em voz, flauta, violão e percussão, Luisa Lacerda em voz e violão, e Renato Frazão na voz e baixo. O álbum Escafandristas reúne quinze músicas do compositor carioca, cada uma transformada pela sensibilidade interpretativa dos integrantes do grupo.

Uma abordagem inovadora e respeitosa

Embora mantenha fidelidade às melodias e letras originais de Chico Buarque, o quarteto Escafandristas se distancia da categoria de simples releitura ao modificar as harmonias e estruturas rítmicas das composições. A execução do grupo o coloca numa posição singular, criando versões que prescindem de qualquer apelo ao karaokê. A sofisticação das vozes harmonizadas evidencia-se em faixas como "Brejo da Cruz", lançada em 1984, que conta com a participação do cantor Giuliano Eriston, e "Sonhos Sonhos São", composição menos explorada do repertório de Chico, selecionada a partir de aproximadamente oitenta pré-selecionadas para o show de estreia realizado em outubro de 2024.

A escolha estratégica das músicas reflete análise cuidadosa do legado buarquiano. O álbum Escafandristas abre com "Construção", da década de 1970, conseguindo se afastar do icônico arranjo criado pelo maestro Rogério Duprat para a gravação original, demonstrando capacidade criativa genuína do grupo em reimaginar clássicos consolidados.

Destaque nas interpretações vocais

O dueto entre Thiago Amud e Luísa Lacerda em "Morro Dois Irmãos" evidencia a sintonia vocal do líder do Escafandristas com a voz característica de Chico Buarque. Esta afinidade vocal se expressa igualmente através de Renato Frazão, cuja interpretação solo em "Cotidiano" se destaca pela execução precisa, com arranjo que evoca a repetição das rotinas cotidianas entre pausas sincronizadas aos versos da composição.

A colaboração entre o Escafandristas e personalidades próximas ao compositor enriquece a dimensão afetiva do projeto. As cinco netas de Chico Buarque – Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa Buarque – participaram pela primeira vez de uma gravação em estúdio juntas, interpretando "As Minhas Meninas" ao lado do quarteto. Esta faixa inclui referência ao "Acalanto para Helena", canção de ninar composta por Chico para a filha Helena, mãe de duas das netas participantes.

Referências musicais e citações sofisticadas

As sete citações inseridas ao longo de seis das quinze faixas revelam conhecimento profundo dos músicos do Escafandristas sobre a obra de Chico Buarque. "Futuros Amantes", de 1993, incorpora menção a "Eu Te Amo", clássico escrito por Chico Buarque em colaboração com Antonio Carlos Jobim. De maneira similar, "Corrente" recebe citação de "Mambembe", conectando diferentes períodos criativos do compositor.

"Morena dos Olhos d'Água", samba de 1966, emerge com referência à "Morena do Mar" de Dorival Caymmi, estabelecendo diálogo entre gerações de compositores brasileiros. A faixa também evoca a ciranda "Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa", escrita em colaboração entre Chico Buarque e Edu Lobo, enriquecendo a tapeçaria musical do Escafandristas.

Participações especiais e emoção contida

A participação de Ruy Guerra, parceiro histórico de Chico Buarque em "Fado Tropical" de 1973, marca presença significativa em "O Que Será (À Flor da Terra)", onde o artista recita versos ao fundo de um arranjo majoritariamente a cappella do Escafandristas. Esta escolha de apenas vozes humanas amplifica a carga emocional do registro, criando momento de contemplação no álbum.

Se a emoção por vezes permanece contida ao longo das quinze faixas gravadas no estúdio da gravadora Biscoito Fino, tal característica reflete escolha estética deliberada, priorizando a excelência musical do grupo. O álbum Escafandristas mantém equilíbrio entre virtuosismo instrumental e expressividade vocal, evitando o excesso sentimental em favor da sofisticação sonora.

O encerramento contemplativo do álbum

A faixa final, "Tempo e Artista" de 1993, oferece reflexão apropriada sobre o significado do projeto. Através de registro terno e envolvente, o quarteto sublinha que a obra de Chico Buarque alcançou patamar de imortalidade artística. O álbum Escafandristas não apenas reinterpreta as composições do maestro carioca, mas as remodela conforme a sensibilidade sofisticada do grupo contemporâneo, inserindo-se numa tradição de música brasileira que continua evoluindo e encontrando novas expressões.

Com esta estreia discográfica, o Escafandristas consolida sua proposta de oferecer leituras sofisticadas da obra de Chico Buarque, mantendo respeitosa relação com o legado enquanto estabelece uma voz artística própria e reconhecível. O projeto reflete momento especial para a música brasileira, onde artistas emergentes dialogam criativamente com a geração anterior, garantindo continuidade e renovação simultâneas.

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