Mulher declarada desaparecida durante regime militar chileno está viva na Argentina
Bernarda Vera Contardo, uma mulher chilena oficialmente registrada como desaparecida durante a ditadura de Augusto Pinochet, foi descoberta viva morando na Argentina, após mais de cinco décadas longe do seu país de origem. A descoberta surpreendente foi confirmada pela Justiça chilena através de um relatório pericial de DNA, que estabeleceu uma probabilidade de identificação superior a 99,9999%, encerrando décadas de incerteza sobre o seu paradeiro.
O caso de Bernarda Vera Contardo representava um dos muitos mistérios não resolvidos da ditadura chilena (1973-1990), que deixou aproximadamente 40 mil vítimas entre desaparecidos, execuções extrajudiciais, torturados e prisioneiros políticos. Agora, com 80 anos de idade, a mulher vive tranquilamente na província de Buenos Aires, Argentina, onde construiu uma nova vida longe dos horrores do regime militar que a procurou décadas atrás.
O desaparecimento registrado em 1973
Em outubro de 1973, pouco após o golpe de Estado que levou Pinochet ao poder, Bernarda Vera tinha apenas 27 anos. Naquela época, ela trabalhava como professora em uma escola pública de Puerto Fuy, localizada no Complexo Madeireiro e Florestal Panguipulli, na região de Los Ríos, no sul do Chile. Era uma mulher casada, mãe de uma filha de cinco anos e militante política ativa.
Vera participava do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) e do Movimento Camponês Revolucionário (MCR), organizações que se posicionavam contra o novo governo militar. Seu engajamento político a colocou na mira das autoridades militares, que realizavam detenções em massa durante aquele período turbulento.
O Relatório Rettig e a inclusão como vítima
Quando a Comissão da Verdade e Reconciliação foi estabelecida em 1990, durante o governo do presidente Patricio Aylwin, os pais de Bernarda Vera prestaram testemunho sobre o desaparecimento da filha. Segundo seu relato, eles haviam perdido contato com ela logo após o golpe de 1973. Com base nessas informações, a mulher foi oficialmente incluída no Relatório Rettig, publicado em 1991, como uma das 1.469 vítimas de desaparecimento forçado no Chile.
O documento oficial afirmava que Bernarda Vera havia sido detida por militares em 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, na região pré-cordilheirana dos Andes. Segundo o relatório, ela teria sido executada ao lado de outras 15 pessoas na ponte de Villarrica, sobre o rio Toltén, com seus corpos posteriormente lançados nas águas do rio. Este relato permaneceu como versão oficial por 35 anos.
A versão alternativa: fuga para a clandestinidade
As primeiras dúvidas sobre a veracidade dos eventos registrados surgiram de um companheiro de militância de Bernarda Vera. José Manuel Bravo, ex-membro do MIR, deixou registrado no Museu de Neltume um testemunho que contradiz a narrativa oficial. Segundo sua versão, um grande grupo conseguiu escapar dos militares em outubro de 1973 e se refugiar nas montanhas.
Bravo afirmou que Bernarda Vera, conhecida pelo pseudônimo "Anita" entre os membros da organização, estava entre os que fugiram. Ele descreveu-a como uma mulher magra, mas dotada de "uma vitalidade que permitia a ela suportar a vida caminhando nas montanhas". No livro "De Carranco a Carrán: las tomas que cambiaron la historia", publicado em 2012, Bravo revela que ele e outros companheiros permaneceram ao lado de Vera na montanha até dezembro de 1973, dois meses após a data do seu suposto desaparecimento.
A rota de fuga para a Argentina e Suécia
Acredita-se que por volta de dezembro de 1973 ou início de 1974, Bernarda Vera conseguiu escapar clandestinamente do Chile para a Argentina, com assistência de Svante Grände, um membro sueco do MIR que ajudava companheiros perseguidos. Após uma permanência na Argentina, ela se casou com um homem argentino e partiu com ele e um filho recém-nascido rumo à Suécia, país que oferecia possibilidades de refúgio para perseguidos políticos.
Na Suécia, Bernarda Vera recebeu seu primeiro visto e autorização de residência em 1978. Lá ela construiu uma vida estável, teve mais dois filhos e, em 1984, obteve a nacionalidade sueca. Ao final da década de 1990, ela retornou à Argentina, onde se estabeleceu na localidade balneária de Miramar, ao sul de Buenos Aires, longe dos olhares e das investigações que a procuravam no Chile.
O reencontro com a realidade: a descoberta da Chilevisión
Foi na região de Miramar que a emissora de televisão chilena Chilevisión a localizou em meados de 2024. A descoberta surpreendente levou à solicitação de um teste de DNA para confirmação da identidade. Segundo fontes do Poder Judiciário chileno, a própria Bernarda Vera concordou em submeter-se ao exame, que foi realizado através de um tribunal de Mar del Plata, na Argentina.
O relatório pericial ordenado pelo ministro extraordinário chileno para causas relacionadas aos direitos humanos, Álvaro Mesa Latorre, utilizou o perfil genético de Bernarda Vera e amostras de seus familiares disponíveis no Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal do Chile. Os resultados científicos confirmaram, com uma probabilidade superior a 99,9999%, que se tratava da mesma pessoa presumida morta há tantos anos.
O desejo de paz e privacidade
Quando as equipes de imprensa bateram à porta de Bernarda Vera em Miramar, ela conseguiu evitar as câmeras. No entanto, seu filho Maximiliano conversou com os jornalistas e revelou informações sobre os desejos da mãe. Segundo declarações feitas à jornalista Florencia Valenzuela, da Chilevisión, Bernarda sempre imaginava que um dia seria encontrada, mas é uma mulher forte que não tem medo.
Apesar da confirmação de sua existência e localização, a mulher deixou claro que não deseja discutir seu passado e prefere viver uma vida tranquila e discreta. Seu filho reafirmou que ela apenas almeja paz e estabilidade, longe dos holofotes e do escrutínio público que sua história naturalmente atraiu.
O impacto emocional na filha deixada no Chile
A filha de Bernarda Vera, que tinha apenas cinco anos em 1973, passou décadas acreditando que sua mãe estava morta. Agora com 58 anos, ela recebeu a notícia surpreendente de que sua mãe estava viva e vivia na Argentina. A reação foi de descrença e confusão, pois ela sempre manteve a convicção de que, se estivesse viva, sua mãe teria tentado estabelecer contato em algum momento.
A jornalista Florencia Valenzuela relatou a dificuldade de comunicar a descoberta à filha, principalmente porque não havia clareza sobre o histórico familiar e os motivos pelos quais Bernarda Vera não havia mantido contato. A filha afirmou aos repórteres que tinha certeza de que sua mãe entraria em contato se estivesse viva, o que levanta questões complexas sobre as razões da longa separação e do silêncio mantido por Bernarda.
Questões legais e investigações administrativas
A descoberta de que Bernarda Vera não era, de fato, uma prisioneira desaparecida abriu novas questões legais no Chile. A mãe de Vera recebeu em vida uma pensão de reparação a que tinha direito como familiar de uma vítima de violações de direitos humanos. Sua filha, também em situação de incapacidade, recebe benefícios relacionados ao reconhecimento de danos causados pela ditadura.
Com a confirmação de que Bernarda Vera está viva, membros da direita política chilena, incluindo deputados apoiadores do presidente José Antonio Kast, exigiram investigações para determinar se ocorreu má conduta na concessão desses benefícios e solicitaram que o Estado recupere os recursos já desembolsados. Esta ação judicial sobre o desaparecimento de Bernarda Vera foi aberta em 2009, arquivada temporariamente em 2014 devido à impossibilidade de comprovar as circunstâncias do seu desaparecimento, e reaberta em 2025 quando o Plano Nacional de Busca identificou inconsistências no caso.
Negligência estatal e responsabilidades políticas
A reportagem da Chilevisión revelou que diversas autoridades do Estado chileno tiveram conhecimento de inconsistências no caso de Bernarda Vera por anos, sem agir de forma diligente. Segundo o ex-policial Sandro Gaete, que integrou o Plano de Busca, as autoridades do governo de Gabriel Boric possuíam evidências em 2024 e não as encaminharam à Justiça prontamente. Sua denúncia sugere que o Estado chileno tinha informações remontando a 2007.
O governo de Boric respondeu que encaminhou os antecedentes oportunamente ao ministro Álvaro Mesa, que abriu a investigação culminando na confirmação definitiva sobre o caso. O governo atual anunciou que solicitará investigações sumárias para determinar eventuais responsabilidades administrativas e notificará o Conselho de Defesa do Estado para possíveis ações judiciais. Permanece em aberto a questão dos verdadeiros motivos pelos quais Bernarda Vera manteve-se afastada e não buscou reunião com sua família ao longo de todas essas décadas.
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