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Témiscaming enfrenta crise com tarifas de Trump

Témiscaming enfrenta crise com tarifas de Trump
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A Cidade Ameaçada pelas Tarifas de Trump

As consequências das tarifas impostas pelo presidente Donald Trump ao Canadá tornaram-se especialmente devastadoras para Témiscaming, uma pequena cidade québécoise que depende há mais de um século da indústria de papel. A fábrica de papel, principal motor econômico local, encerrou suas operações após o fracasso nas negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos, deixando centenas de trabalhadores sem emprego e ameaçando a própria existência da comunidade. As tarifas de Trump criaram uma situação de emergência que evidencia como as disputas comerciais internacionais afetam comunidades inteiras, especialmente aquelas cuja economia está concentrada em um único setor produtivo.

A imposição de tarifas de até 50% sobre produtos canadenses, em agosto, incluiu itens cruciais como celulose, papelão e papel, setores nos quais Témiscaming é particularmente dependente. A fábrica local, que produz papelão para embalagens de alimentos congelados e bilhetes de loteria instantânea, envia aproximadamente 75% de sua produção para os mercados norte-americanos. Com as tarifas de Trump tornando essas exportações economicamente inviáveis, a empresa americana RYAM, proprietária desde 2017, decidiu paralisar indefinidamente as operações em outubro.

O Impacto Econômico e Social na Comunidade

Os 360 funcionários da fábrica enfrentam agora desemprego generalizado, sustentando-se parcialmente através de programas de alívio tarifário governamental. No entanto, o problema transcende questões financeiras imediatas. Nadine Suley, moradora da região, expressa a gravidade da situação: o fechamento não representa apenas perda de renda, mas destruição de um modo de vida construído ao longo de gerações em torno da indústria madeireira.

O valor das propriedades residenciais despencou drasticamente. Placas de venda proliferam nos jardins de casas modestas que caracterizam o bairro, enquanto residentes temem o êxodo de profissionais essenciais, desde funcionários de supermercados até médicos de hospitais locais. Ronnie Raymond, membro de família de trabalhadores da fábrica há várias gerações, alerta para o risco de Témiscaming transformar-se em cidade fantasma.

Efeitos em Cadeia no Setor Florestal

A crise econômica não se limita à fábrica de papel. Serrarias, empresas de transporte rodoviário e fornecedores locais também enfrentam consequências severas. Um empreiteiro local relatou à BBC ter demitido 13 funcionários já em resposta aos problemas causados pelas tarifas de Trump. A economia regional, profundamente integrada ao setor florestal, enfrenta potencial colapso em cascata.

Comparação com Crises Anteriores: A História de 1973

Témiscaming não enfrenta essa ameaça pela primeira vez. Em 1973, quando o proprietário americano ameaçou fechar a fábrica, trabalhadores e gestores locais uniram-se em esforço extraordinário para adquirir a empresa coletivamente. Essa mobilização resultou na criação da Tembec, companhia internacional de propriedade québécoise que operou unidades na América do Norte e França.

Frank Dottori, engenheiro aposentado que liderou aquele movimento histórico, relembra como suas ambições foram inicialmente consideradas absurdas. O então primeiro-ministro de Quebec o colocou educadamente para fora quando buscava apoio pela primeira vez. Contudo, com determinação, organização sindical e gestão competente, conseguiram realizar o impossível.

Hoje, a comunidade espera repetir aquele feito. Trabalhadores e moradores mobilizam-se para recomprar a fábrica da RYAM, confiando que nova liderança carismática e organizações comunitárias podem reverter a situação. Stéphane Lefebvre, funcionário e líder sindical cuja família trabalhou na fábrica por gerações, lidera esses esforços, afirmando: "Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar".

O Papel Insuficiente do Governo

Críticos apontam que o governo canadense respondeu inadequadamente aos desafios enfrentados pelo setor florestal comparado à atenção dedicada a outras indústrias afetadas pelas tarifas de Trump. Enquanto o setor siderúrgico e automobilístico receberam pacotes de investimento significativos, a indústria madeireira permanece marginalizada nas prioridades governamentais.

Investimentos Desproporcionais em Outros Setores

O primeiro-ministro Mark Carney e o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, anunciaram recentemente um pacote de quase C$ 9 bilhões para modernizar setores siderúrgico e automobilístico. Quando a ministra da Indústria, Mélanie Joly, ameaçou sanções financeiras contra a Stelco por planejar demissões relacionadas às tarifas, demonstrou disposição de ação decisiva em setores maiores.

Em contraste, o governo disponibilizou apenas C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas. Para líderes como Stéphane Lefebvre, essa disparidade evidencia falta de priorização: "Se houvesse perda de 10% dos empregos em Toronto, Montreal, Quebec ou Vancouver, isso estaria em todos os noticiários e pressionaria muito os governos a tomarem providência".

O prefeito Alain Gauthier descreve as tarifas americanas como "bomba destinada a acabar com nossa produção industrial no Canadá" e critica a resposta federal, afirmando que o país enfrenta a guerra comercial "armado com pistolas de água de criança para revidar". Ele demanda que o governo federal imponha tarifas sobre produtos de papelão importados dos Estados Unidos, que atualmente entram no Canadá sem cobrança.

Contexto Macroeconômico: Resistência Geral Mascarando Crises Localizadas

Embora a economia canadense como um todo tenha resistido razoavelmente à guerra comercial com os Estados Unidos, análise detalhada revela focos de dificuldade severa. A taxa de desemprego nacional mantém-se estável em torno de 6,5%, acompanhada de crescimento econômico moderado. Entretanto, setores diretamente afetados pelas tarifas de Trump—aço, alumínio, automóveis e madeira—enfrentam crises profundas.

Esse padrão demonstra como estatísticas nacionais mascaram realidades devastadoras em comunidades específicas. Enquanto grandes centros urbanos mantêm relativa estabilidade, cidades como Témiscaming enfrentam potencial aniquilação econômica.

Esperanças Futuras e Condições para Recuperação

Trabalhadores de Témiscaming depositam esperanças nas próximas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Acreditam que resultados eleitorais podem pressionar Trump, cujos índices de aprovação caem segundo pesquisas, reduzindo algumas tarifas impostas ao Canadá.

Frank Dottori enfatiza que suspensão das tarifas americanas é fundamental para viabilidade econômica de longo prazo da fábrica. Simultaneamente, alerta que a nova geração de trabalhadores necessita liderança tão ousada quanto aquela de 1973, combinada com apoio governamental significativo, seja através de medidas de alívio tarifário ou suporte financeiro direto.

A preocupação imediata é o inverno que se aproxima. Temperaturas abaixo de zero podem congelar equipamentos da fábrica paralisada, provocando danos que tornariam sua reabertura ainda mais difícil. Essa janela de tempo reduzida cria urgência adicional para encontrar soluções antes que dezembro chegue.

Stéphane Lefebvre permanece determinado, independentemente dos obstáculos: "Estamos no jogo 7 agora. Vamos jogar até o apito final". Sua resolução reflete esperança coletiva de que Témiscaming, assim como superou crises anteriores, encontrará caminho para sobreviver aos desafios impostos pelas tarifas de Trump e recuperar sua posição como comunidade vibrante e economicamente sustentável.

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